Gatilhos do Ganho de Peso e Exercício Físico

A estimativa é que o número de pessoas obesas dobrará nos próximos 15 anos.

É isso mesmo:  em 2030 as projeções são de que o número de obesos no mundo alcance pelo menos 1,5 bilhões de pessoas. Será que não conseguiremos regredir esse valor?

Estamos falando de um número excessivo de pessoas doentes. Sim! A obesidade é uma doença.

O IMC

Para se ter uma ideia, do ponto de vista epidemiológico,aquele que tenta enxergar a população como um todo, e não de forma singularizada. Existe um índice chamado IMC (índice de massa corporal), cujo valor resultante da divisão do peso corporal em quilos sobre a estatura ao quadrado. Este classifica o grau do estado nutricional enquadrado pela pessoa. Em síntese, caso os valores sejam menores que 25 kg/m², classifica-se o índice com o peso normal. A partir desse valor até 29,9, considera-se que o indivíduo está com sobrepeso e, a partir de 30, obesidade. Quanto maior o valor, mais suscetível ao desenvolvimento de outras doenças a pessoa fica. Desde patologias osteoarticulares, que comprometem articulações e ossos até cardiometabólicas, associadas a hipertensão arterial, coronariopatias, diabetes mellitus do tipo 2 e doença renal crônica. Todas diretamente associadas ao aumento do risco de morte.

É importante levar em consideração que essa ferramenta não avalia a composição corporal do sujeito. Portanto não distingue o peso corporal em massa adiposa ou massa muscular, também chamada de massa isenta de gordura.

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Voltando ao assunto…

O IMC e a massa muscular

A massa muscular aumentada e um percentual de gordura reduzido geralmente são composições corporais conquistadas por pessoas que se engajam regularmente em atividades físicas e também possuem bons hábitos alimentares. Isso nos leva a pensar que, apesar de possuírem tais hábitos de alimentação e exercício,  esses indivíduos podem apresentar valores de IMCs reduzidos ou mesmo elevados.

Podemos concluir,portanto, que a grande quantidade de massa muscular, como no caso dos fisiculturistas. Não permite inferir, do ponto de vista obesogênico, que a classificação do IMC para pessoas ativas e com grande capacidade de modulação da composição corporal através da prática de exercícios físicos, sirva para a população ativa.

Isso tem fundamento, ao levar em consideração que os valores de IMC, quando usados como base, sem contextualização clínica, são apenas dados“matemáticos”. Ou seja, é necessário adicionar outros achados clínicos ao valor de IMC para obtermos informações adicionais sobre o paciente, cliente ou aluno de modo a classificarmos o risco de aquisição de outras doenças além da obesidade.

Não é só o IMC

Diante disso, é imprescindível que se leve em consideração medidas relacionadas à prática de exercícios físicos, circunferência abdominal, valores pressóricos, glicemia de jejum ou glicada, frequência de consumo de determinados alimentos, principalmente os de alto valor energético, entre diversos outros fatores.

Todas essas correlações são importantes para a prevenção, diagnóstico e tratamento da doença. Que já é considerada pandemia mundial e onerará os cofres públicos em saúde em 2030.

A questão da obesidade

Para se ter ideia do tamanho do problema, a estimativa é que, somente nos Estados Unidos, o gasto seja por volta de 1 trilhão de dólares. Por isso, é preciso que nós entendamos os diversos aspectos envolvidos na origem da obesidade. Para buscar medidas que possam pelo menos reduzir sua incidência ou suas comorbidades . A ocorrência simultânea de doenças em um indivíduo e garantir a qualidade de vida das pessoas sujeitas aos danos dessa doença.

Primeiramente é preciso esclarecer: “SIM”, a obesidade pode ser instaurada pelo sedentarismo ou a falta de atividade física e hábitos alimentares irregulares. Que constituem o chamado balanço energético positivo. Em que a energia diária advinda pelo consumo alimentar é maior que o gasto energético dos processos metabólicos do corpo. Contudo, um profissional da área de saúde que acredita que a gênes e ou tratamento da doença se faz apenas sobre práticas voltadas a esse binômio energético, está fadado ao fracasso. Da terapia voltada ao emagrecimento e melhora dos parâmetros metabólicos.

O ganho de peso e a eepigenética

Dos inúmeros fatores responsáveis pelo ganho de peso, chama-se atenção para o primeiro deles: a obesidade pode ter sido iniciada pelos seus avós! Como?

Através de uma coisa que se chama epigenética. Nela, o fundamento básico é o de que existem estímulos ambientais que excitam diariamente o comportamento da expressão de diversos genes. E que podem estimular positivamente ou negativamente o funcionamento crônico das respostas enviadas pelo comando do DNA.

Essas reações são as responsáveis pela síntese de milhões de proteínas que irão ser encarregadas. Direta e indiretamente, pelo funcionamento do seu metabolismo. Assim, a modulação do grau da expressão de proteínas, digamos, “saudáveis e maléficas”, vai depender do quanto você expõe seu corpo a fatores como:  produtos tóxicos ou radiações, poluição ambiental, nutrientes, hormônios e a própria contração muscular consequente do movimento corporal.

Outro aspecto importante é que o nível de exposição e, consequentemente,a expressão gênica desses aspectos, seria capaz de deixar uma “marca” genética duradoura. Que poderia ser perpetuada nos cromossomos das gerações conseguintes. Dessa forma, aumentaria a suscetibilidade e sensibilidade dos estímulos ambientais que acionariam respostas gênicas em prol do ganho de peso ou emagrecimento.

“Programação” da obesidade durante a gravidez

Levando em consideração esses fatores. O período de gravidez pode se tornar um momento de desenvolvimento que os pesquisadores denominam “ janela de programação metabólica”. Isso quer dizer que a mãe pode propagar ao feto estímulos capazes de modular futuramente o comportamento do metabolismo do filho. Deixando-o mais suscetível tanto ao ganho de peso quanto ao emagrecimento. Dentre as diversas condições ambientais maternas que podem sujeitar o desenvolvimento fetal, podemos citar o próprio estado nutricional.

Estudos mostram que o estado nutricional materno ao longo da gestação é capaz de intervir na programação do comportamento metabólico do filho no futuro. Tanto a desnutrição materna quanto os estados de sobrepeso ou obesidade durante a gravidez. Podem, ainda no período gestacional, desencadear pulsos nutricionais e hormonais. Que vão orquestrar o desenvolvimento e comportamento de diversos genes. E são esses genes que, no futuro, serão responsáveis pela mediação e controle do balanço. E também consumo energético do descendente.

Uma mãe que apresenta desnutrição durante a gestação pode programar os genes da criança a funcionar de uma maneira hiperestimulada para absorver e consumir energia durante a sua fase de crescimento e desenvolvimento pós-natal. É como se fosse um mecanismo natural de compensação da criança em detrimento da falta de nutrientes ofertados durante seu desenvolvimento. O organismo entende que ele precisa potencializar as vias de absorção de nutrientes no intuito de promover um aporte adequado energético que equilibre uma possível falta durante sua a formação orgânica.

Cuide da saúde do seu filho

Contudo, vias principalmente hormonais tendem a ser desequilibradas de modo a levar o recém-nascido a promover um desbalanço precoce da sinalização de hormônios. Principalmente os que regulam os sinais de apetite fome e saciedade. A partir daí, cria-se um ambiente obesogênico crônico. De superalimentação, hiperabsorção, inflamação e aumento da capacidade de anabolismo celular. Principalmente das células adiposas, que em crianças tendem a ser mais sensíveis à multiplicação e diferenciação celular. Isso  leva ao aumento crônico e irreversível no número de células de gordura que o indivíduo carregará para o resto da vida.

Esta é uma das justificativas, independentemente da vulnerabilidade dos genes obesogênicos, de se prevenir a obesidade ainda durante a infância:  a hiperplasia das células de gordura ou adipócitos é potencialmente expressa em períodos iniciais da vida.

A magnitude do crescimento e número de células de gordura desenvolvidas para “preencher” o tecido adiposo responde proporcionalmente aos vários estímulos advindos do ambiente.

Esse contexto irá acionar as reações celulares relacionadas ao ganho de peso. Principalmente pelo ganho de tecido adiposo através da hiperplasia dos adipócitos.

Obesidade e o sedentarismo

A prática de exercício físico feita regularmente irá acionar mecanismos no seu corpo que induzirão a melhora dos diversos sistemas que coordenam o metabolismo. E enviam impulsos para um remodelamento da eficiência com que ele queima gordura. Além de melhorar outros aspectos como ganho de massa muscular.

Contudo esse efeito só é desenvolvido quando se incorpora exercícios sempre. Ou seja, o estilo de vida ativa é capaz de induzir respostas positivas e duradouras responsáveis pela melhora do metabolismo. E consequentemente atividade integrativa dos sistemas biológicos que modulam o quanto você irá emagrecer.

Portanto incorpore o quanto antes esse hábito saudável em sua vida.

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Referências:

Dishman R.K. et al. Neurobiology of Exercise. Obesity. 2006. v.14. n.3. Mar.

Santiago Tavares Paes et al. Metabolic effects of exercise on childhood obesity: a current view. Rev Paul Pediatr. 2015. v.33. n.1: 122–129.

Santiago Tavares Paes et al. Childhood obesity: a (re) programming disease? Journal of Developmental Origins of Health and Disease. 2016. v. 7. n. 3. p. 231-236.

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