Afinal, Beber Leite Faz Mal?

Existem algumas especulações de que o consumo de leite é ruim para a saúde, algumas das justificativas relatam que o leite é extremamente inflamatório, que compromete o metabolismo e também pode causar câncer.

De fato, a sinalização das Toll Like receptors (responsáveis pelas respostas de imunidade inata) são mais estimuladas pelo leite e seus derivados, o que pode desencadear reações inflamatórias advindas desses alimentos[1]. Entretanto, o mesmo leite fornece agentes anti-inflamatórios capazes de modular naturalmente a inflamação. Todavia a responsividade dos receptores celulares do indivíduo é o que determinará se o leite aumentará ou diminuirá a inflamação, exemplo disso são os indivíduos com intolerância a lactose ou lácteos. Ou seja, talvez não seja o leite o principal desencadeador dessa situação.

Em se tratando do comprometimento do metabolismo, 2 meta-análises avaliaram os estudos da relação entre consumo de leite tanto com obesidade infantil [2] quanto com a síndrome metabólica na vida adulta[3], a conclusão em ambos foi a de que existe uma relação inversa entre as variáveis, ou seja, o consumo de leite está associado a diminuição da incidência da síndrome metabólica e também da obesidade infantil, um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiometabólicas no futuro. Elas suportam o contrário, o consumo lácteo pode prevenir essas doenças!

Recente diretriz nutricional do American College of Sports Medicine, faz menção clara de que o consumo de leite e derivados é um dos principais alimentos estimuladores da hipertrofia muscular, principalmente quando ingeridos pós-treinamento de musculação[4]. 

Agora, o mais grave, é a dita associação com o desenvolvimento de câncer, doença que pode levar ao óbito. A literatura atual acerca dessa temática relata: Não existe associação entre o consumo de leite/derivados e câncer no pulmão [5]

Não existe associação entre o consumo de leite/derivados e câncer gástrico, pelo contrário o consumo está relacionado a diminuição da incidência desse tipo de câncer [6]

O consumo de leite está associado a diminuição do risco de câncer colorretal [7].

Entre meta-análises, diretrizes e consensos, estas são apenas algumas das muitas referências científicas sobre a incongruência dos relatos contra o consumo de leite/derivados. É importante salientar que existem condições clínicas em que a avaliação do consumo será realizada pelo nutricionista (mais um ponto positivo para ele não?!) como por exemplo nos casos de intolerância a lactose. Embora haja sempre a necessidade de pesquisar e estudar, o consumo leite/derivados, dentro de uma dieta balanceada, deverá ser sempre considerado, na AUSÊNCIA de claras contra indicações clínicas [8] ou contaminação e adulteração do alimento.

Portanto é sempre importante se informar, debater e discutir. Vá LÁ, IR contra os estudos pode servir de incentivo constante para a compreensão da natureza dos fenômenos, entretanto não utilizá-los para suportar seu ponto de vista, e querer disseminar informações sensacionalistas não é o caminho correto a se tomar.

Referências: 

1. He YY et al. Human Milk Components Modulate Toll-Like Receptor–Mediated Inflammation. Adv Nutr 2016;7:102–11. 2. Lu L et al. Long-term association between dairy consumption and risk of childhood obesity: a systematic review and meta-analysis of prospective cohort studies. European Journal of Clinical Nutrition (2016), 1–10 3. Chen G et al. Dairy products consumption and metabolic syndrome in adults: systematic review and metaanalysis of observational studies. Scientific RepoRts | 5:14606 | 4. Nutrition and Athletic Performance. ACSM 2016 5. Yu Y et al. Dairy consumption and lung cancer risk: a meta-analysis of prospective cohort studies. Onco Targets Ther. 2015 Dec 30;9:111-6
6. Guo Y et al. Dairy consumption and gastric cancer risk: a meta-analysis of epidemiological studies. Nutr Cancer. 2015;67(4):555-68.
7. Abid Z et al. Meat, dairy, and cancer. Am J Clin Nutr. 2014 Jul;100 Suppl 1:386S-93S
8. Visioli F, Strata A. Milk, Dairy Products, and Their Functional Effects in Humans: A Narrative Review of Recent Evidence. American Society for Nutrition. Adv. Nutr. 5: 131–143

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