É Possível Correr uma Maratona Abaixo de 2 Horas?

A Nike, Adidas e um projeto independente estão embarcando em um dos desafios mais místicos e ambiciosos de todos os tempo. Após a quebra dos 4 minutos na milha (1600 metros, em 1954, por Roger Bannister): correr uma maratona (42,2 km) em menos de 2 horas! O que corresponde a um ritmo médio de 2:51 min/km para completar a prova em 1:59:59. Ninguém nunca chegou perto o suficiente para acreditarmos que este tempo está prestes a ser atingido. Já que o recorde mundial atual é de 2:02:57, por Dennis Kimetto (Quênia) atingido em 2014. Usando o tempo de Kimetto como uma linha de base, essa diminuição de quase 3 minutos do recorde mundial, corresponde a uma queda de aproximadamente: 2,5% do tempo oficial.

Após muito debate e controvérsias, um estudo publicado recentemente no jornal científico Sports Medicine (Hoogkamer et al., 2017), levantou a hipótese de que a maratona sub-2 horas é possível. E que com um percurso ideal, estratégias de vácuo, condições meteorológicas favoráveis e tênis mais leves, pode ser atingida agora mesmo. E não satisfeitos, sugeriram que se todas as estratégias propostas forem adotadas. É possível se atingir um tempo bem abaixo da barreira de 2 horas. Algo entre 1:58:21 e 1:58:27!

Os autores iniciam considerando que diminuir o peso corporal dos atletas seria uma boa alternativa para melhorar o desempenho. Porém, já que os maratonistas de elite já são extremamente magros, eles consideraram inviável a redução do peso através da redução da gordura corporal. Além disso, já que carregar o peso do corpo explica cerca de 65% do custo metabólico da corrida. Correr em um local próximo a linha do Equador com uma aceleração gravitacional menor que 0,31% poderia resultar em uma economia metabólica de 0,20%. Que seria transferida a uma diminuição de 15 segundos no tempo da maratona. Entretanto, eles desconsideraram essa alternativa, já que as temperaturas mais altas na linha do Equador podem sobrepor as vantagens gravitacionais.

Ainda, correr em declive, é capaz de diminuir o custo metabólico da corrida comparado à corrida no plano. Por atenuar o custo proveniente da propulsão horizontal. Portanto, uma saída, seria planejar um percurso com grande perda de altitude. Entretanto, de acordo com as regras da IAAF (International Association of Athletics Federations), uma maratona só é ratificada quando há uma perda de elevação menor que 42,2 m. A solução que eles encontraram então, seria um percurso plano na primeira metade. Enquanto que a segunda metade seria em declive, respeitando a diminuição de 42,2 m na elevação. Equivalente a um gradiente de -0,2%, reduzindo o custo metabólico em 0,9%, o que facilitaria um aumento na velocidade de 0,7% na velocidade. E portanto, 28 segundos na segunda metade da maratona.

Além disso, outra vantagem promissora seria o peso e a propulsão dos tênis. Já que em um estudo feito pelos mesmos pesquisadores, mostrou que reduzindo o peso dos tênis em 100g. Haveria uma vantagem de 1% no tempo total da corrida, e que com a propulsão adequada, melhoraria a economia de corrida.

Reduzir a resistência do vento, se posicionando atrás de outro corredor, é uma estratégia comum e uma maneira muito eficaz de reduzir o custo proveniente da propulsão. O estudo cita um artigo antigo (Pugh, 1971) que concluiu que correr a 4,5 m/s, 1 metro atrás de outro atleta, reduz a resistência do ar em 93% e o VO2 em 6,5%. Reduzindo a resistência em apenas 36%, seria suficiente para promover uma vantagem de 2,7% na economia de corrida, suficiente para atingir 1:59:59 na maratona, para um atleta capaz de correr 2:03:00.

O artigo sugere a possibilidade de um “vácuo colaborativo”, no qual 4 atletas alternariam a liderança durante 3 minutos cada, em uma linha indiana (muito evidente nas provas ciclismo) correndo a 1 metro de distância entre eles. Este cenário permitiria, para um atleta capaz de correr a maratona em 2:02:57, uma metade de prova em 58:51, sem esforços adicionais. Com apenas 2 corredores na segunda metade, ainda seriam capazes de correr em 59:30.

Finalmente, um corredor hipotético (com as mesmas características de Dennis Kimetto), usaria um tênis 100g mais leve do que os usados no recorde mundial, permitindo uma diminuição de ~32 segundos no seu tempo e atingiria a primeira metade (plana) em 1:00:57. Na segunda metade, um declive de 42,2 metros salvaria mais 28 segundos, enquanto que o “vácuo colaborativo” com outros três corredores, capacitaria a finalização da prova em 1:58:21.

A Nike tem divulgado nas mídias eletrônicas o avanço do projeto, e já definiram que a tentativa do recorde será feita na pista de fórmula 1 de Monza (voltas de 2,400m) e os atletas usarão um tênis projetado especialmente para este fim.  Entretanto, apesar de toda a logística da prova ter sido divulgada, algumas questões foram levantadas a respeito da validade do recorde. Por exemplo, como a prova será em voltas de 2,400m, isso desrespeitaria a regra 260,21 da IAAF, que articula que a distância medida em linha reta entre a largada e a linha de chegada deve ser de pelo menos 21,1 km. Outro fator, diz respeito à distribuição dos “coelhos”. Foi levantada a hipótese de que coelhos entrariam no meio da prova, ajudando os atletas que correrão durante todo percurso, o que também desrespeitaria as regras da IAAF.

Apesar de o atual recordista mundial ser patrocinado pela Adidas. A Nike contra com outros 3 atletas excepcionais para realizar este feito:

Eliud Kipchoge (Quênia, 32 anos):

Melhores tempos: 12:46 (5.000 metros). 26:49 (10.000 metros). 59:25 (meia maratona). 2:03:05 (maratona);

Lelisa Desisa (Etiópia, 26 anos):

Melhores tempos: 27:11 (10.000 metros). 59:30 (meia maratona). 2:04:45 (maratona);

Zersenay Tadese (Eritreia, 34 anos):

Melhores tempos: 12:59 (5.000 metros). 26:37 (10.000 metros). 58:23 (meia maratona). 2:10:41 (maratona).

Referências:

HOOGKAMER, W.; KRAM, R.; ARELLANO, C. J. How Biomechanical Improvements in Running Economy Could Break the 2-hour Marathon Barrier. Sports Medicine, p. 1-12,  2017. ISSN 0112-1642.

PUGH, L. G. E. The influence of wind resistance in running and walking and the mechanical efficiency of work against horizontal or vertical forces. The Journal of physiology, v. 213, n. 2, p. 255,  1971.

Autor: Guilherme Matta

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