Esporte de alto rendimento é prejudicial à saúde?

Durante muitos anos, o esporte de alto rendimento têm sido alvo de críticas acerca dos riscos que volumes de treino “excessivos” poderiam causar à saúde dos atletas. Criou-se uma noção de que o exercício físico “em excesso” vivenciado por atletas de elite, induziria um estresse exagerado ao sistema cardiovascular. Tais ideias são baseadas em estudos primórdios conduzidos há mais de 50 anos. No entanto, a existência de covariáveis, como a prevalência do doping na época, tornam os resultados no mínimo questionáveis. Levando em consideração que o conhecimento e o controle sobre o abuso de substâncias ergogênicas ilícitas era escasso há algumas décadas, podemos discutir se os atletas apresentariam altas taxas de doenças cardiovasculares ou até mesmo morte súbita.

Os primeiros indícios de doping no ciclismo por exemplo, surgiram com o uso de anfetaminas 1. Em 1960, um dos atletas mais renomados do Reino Unido da época, Tom Simpson, morreu durante a escalada do notório Mont Ventoux durante o Tour de France 2. Em sua autópsia foi comprovada a presença de anfetaminas no seu organismo, que poderia ter afetado sua capacidade de julgamento e regulação do exercício. Além disso, em uma entrevista em 1924, os irmãos Pélissier reportaram que o Tour de France era uma prova tão árdua que era habitual o uso de uma mistura de estricnina, álcool, éter, trimetil, nitroglicerina, heroína, cocaína, entre outros produtos duvidosos que prometiam aumentar o suporte à dor 1. Portanto, sem considerarem o uso indiscriminado de substâncias ilícitas, alguns pesquisadores começaram a questionar se os casos de morte súbita e eventos cardiovasculares no esporte estariam relacionados aos altos volumes de treino aos quais os atletas se submetem.

No entanto, nos tempos atuais, com o desenvolvimento científico acerca dos efeitos colaterais induzidos por substâncias estimulantes e um maior controle anti-doping no esporte, será que altos volumes de treino são realmente prejudiciais à saúde?

Estudos mostram que na realidade, a expectativa de vida de atletas de elite é em média maior do que o restante da população 3. Por exemplo, um estudo de 2011 4 reportou que a expectativa de vida de 834 ciclistas que participaram do Tour de France entre 1930 e 1964, foi quase 10 anos maior do que o restante da população. É importante ressaltar que ciclistas que possuem capacidade de participar em uma competição como esta, treinam por aproximadamente 30.000 a 35.000 km por ano ou mais de 30 horas por semana 4! Ou seja, mesmo com volumes de treino extremamente altos e um precário controle anti-doping na época abordada pelo estudo, os atletas apresentaram uma expectativa de vida maior do que o restante da população.

Além disso, um editorial publicado no British Journal of Sports Medicine 3, revisou os resultados de 15 estudos analisando a expectativa de vida e risco de morte súbita em atletas de elite de diversas modalidades, comparando com a população não-atleta. Os resultados reportados promovem forte suporte a noção de que o alto volume de treino/competições NÃO está relacionado com o desenvolvimento de problemas cardiovasculares ou morte súbita 5; e que na verdade, a participação em eventos e competições esportivas está associada ao aumento da expectativa de vida e diminuição no risco de doenças cardiovasculares e metabólicas.

Indiretamente, ex-atletas geralmente demonstram um estilo de vida mais saudável, sendo mais ativos, consumindo menores quantidades de álcool, cigarro, e adotando uma dieta mais equilibrada em relação aos seus pares 3. Fisiologicamente, a capacidade respiratória de um indivíduo (VO2max) tem sido comprovada como um forte preditor de mortalidade 6. Desta forma, atletas envolvidos com treinamento regular de alto volume/intensidade, possuem um alto VO2max e consequentemente, maior expectativa de vida. Sabe-se também, que o VO2max sofre uma diminuição natural e contínua com o tempo; porém, ex-atletas demonstram uma queda menos acentuada ao longo dos anos em relação aos não-atletas 6.

Portanto, os estudos suportam a ideia de que a prescrição de exercício físico regular e vigoroso pode ser uma estratégia eficaz para a melhora da saúde da população—através principalmente de um aumento significativo do VO2max, e adoção de estilos de vida mais saudáveis na terceira idade. Com a habituação progressiva, regular e bem controlada de um programa de treinamento eficiente, prescrito por profissionais qualificados, tenha certeza que os anos extras que serão adicionados a sua vida, serão muito mais prazerosos.

Autor: Guilherme Matta

Referências

  1. Vandeweghe, H. (2016). Doping in cycling: past and present. The Economics of Professional Road Cycling (p. 286-287). Springer, Cham.
  2. Lippi, G., Franchini, M., & Guidi, G. C. (2008). Switch off the light on cycling, switch off the light on doping. British Journal of Sports Medicine, 42: 162-162.
  3. Ruiz, J. R., Morán, M., Arenas, J., & Lucia, A. (2011). Strenuous endurance exercise improves life expectancy: it’s in our genes. British Journal of Sports Medicine, 45: 159-161.
  4. Sanchis-Gomar, F., Olaso-Gonzalez, G., Corella, D., Gomez-Cabrera, M. C., & Vina, J. (2011). Increased average longevity among the “Tour de France” cyclists. International Journal of Sports Medicine, 32: 644-647.
  5. Parry-Williams, G., & Sharma, S. (2020). The effects of endurance exercise on the heart: panacea or poison?. Nature Reviews Cardiology, 17: 402-412.
  6. Strasser, B., & Burtscher, M. (2018). Survival of the fittest: VO2max, a key predictor of longevity. Front Biosci (Landmark Ed), 23: 1505-1516.

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